domingo, 14 de agosto de 2016

De repente 30!

De repente 30!


            







Ela acordou, respirou fundo e sentou-se na cama. Ela estava particularmente confusa naquela manhã, faltava uma semana para o seu aniversário, mas algo não estava certo.

Ainda tentando entender a matemática, nada básica, da vida começou a contar. No início usou os dedos das mãos, certa de que neles caberia toda a sua experiência.


Logo se deu conta que a maturidade da alma não acompanha os anos do calendário.  Dez era pouco. Dez é para quem gosta de brincar e rir de piadas bobas, para quem gosta de algodão doce e foge de legumes... pensando bem, dez até que fazia sentido, mas era pouco.

      Então ela olhou para os dedos dos pés, meio a contragosto, e aceitou aumentar a contagem, afinal sua vida já tinha algumas aventuras que seria importante contabilizar.  E então, vinte começou a parecer mais perto da realidade, já era um pouco mais madura, mas não muito. Um pouco mais inteligente, mas também não muito. Com vinte já se pode casar, já sabe o que se quer da vida, já se tem responsabilidades...

“Não, não, pode parar... vinte também não é.” Falou em voz alta.

         Agora sem muita opção, ela precisava ser objetiva, mas ainda não tinha conseguido se convencer:

“Como assim, 30???” Continuava a questionar.

“Então de repente você acorda de manhã e, BUM, tem 30? Não! Não é assim!!!”.

 Ela não tinha muito tempo, logo enfrentaria as pessoas e precisaria explicar o mal-entendido. Sem saber o que fazer se pôs a rezar:

“Querido, Deus! Acredito que tenha havido um pequeno engano, isso acontece, mas preciso que o Senhor faça, urgente, uma recontagem da minha existência, há uma divergência grave de dados! Vou dormir mais uma hora e, quando acordar fingiremos que nada aconteceu.”

Ela estava certa de que em algum momento, alguém havia adiantado os anos no calendário e esqueceu de voltar.

“Será que Deus também burlava as vidas do Candy Crush?”

Foi aí que ela lembrou do vício em joguinhos de celular, e então, aliviada, voltou para 12.  Mas logo se deu conta que com 12 ela brincava na rua e não existiam celulares.

“Droga, isso me acrescenta pelo menos uns 5”.

      E lembrou que foi com 17 a primeira vez que saiu de casa, foi ser psicóloga, mas foi com 17, também, a primeira vez que voltou, psicóloga não foi. Nesse momento, ela começou a rever todas as tentativas, idas e vindas, todos os erros e acertos de sua vida, e isso levou um tempo... eram muitos.

“Putz, então, se for assim, tô com 58!!!”

Logo se acalmou do susto, pois não era tão impossível assim, pensou nas novelas, nas manias, nas horas de sono, na Ana Maria Braga...

     “Não, se fosse assim eu estaria com 87!!!!” Ela estava em forma para 87.

“Mas eu não deveria estar aposentada?” Riu de si mesma.

Nesse momento relembrou de todos os empregos e trabalhos fora do padrão que já teve, lembrou que aceitava qualquer parada, por uma boa e nova aventura, lembrou do seu amor pelos animais e o tempo que passou com eles...

        “Certamente é 24!!” Disse animada.

Mas pensando em tudo que tinha aprendido, o quanto amadureceu, tantas pessoas que conheceu, cidades que passou, inúmeras dificuldades que enfrentou...

“Seria 41?” Caiu dura para trás com as mãos na cabeça.

Ela se virou para o outro lado da cama e decidiu não se levantar. Assim, não teria que lidar com esse tal de número. Afinal o que os olhos não veem o coração não sente. E foi nesse momento que ela também decidiu que não se olharia mais no espelho, nunca mais.

“Eu não posso assistir isso” Disse indignada.

Ela não queria ser expectadora, nem cúmplice desse crime chamado idade. Ficou ali deitada na cama mais um tempo, pensando em novas formas de contabilizar a vida. Ela não achava justo ser enquadrada numa categoria com a qual não se identificava. E ela não se identificava com esse 30. Era um susto acordar e de repente...

“Aff!!!”. Ela sabia que isso não iria funcionar.

Pensou em todos os amigos, nos Natais em família, nas viagens e lugares que conheceu, pensou nas brigas e nos romances, nas risadas e, melhor, lembrou das gargalhadas, daquelas de doer a barriga, que até esqueceu das tristezas. E se deu conta de quanto ela tinha mudado e crescido. Lembrou de tudo que passou, mas, também, se deu conta de que tudo passou, e ela ...

“Chegaaaaa!!!” Gritou!

Então ela percebeu... “De repente coisa nenhuma!!!”

Algo nela, finalmente, começava a mudar...

“Chega de você também!!!” Falava ela sozinha.

“Não! Eu tô falando com você!!!” Ela soava confusa...

”Não tô confusa! Agora eu entendi tudo. Você já pode sair, Dona Narradora! Eu assumo daqui. Obrigada!”

Oi? Uhm! Hehe... Ela parecia brincar com essa que vos fal...

”Não é brincadeira! Vou falar por mim a partir de agora!” Ela interromp...

“Eu interrompi!” Ela insist...

“Eu insisto!"... Eu insisto!

.... e, então, foi pouco antes de 30 anos que ela decidiu se livrar da personagem... e resolvi assumir as rédeas da minha própria vida ... E entendi, que a melhor idade é aquela que se tem!!!


Seja bem vindo, 30!!!!


sábado, 30 de maio de 2015

Da série: Eu e a Vida: "… e quando é a vida que erra?"

… e quando é a vida que erra?

Eu não errei de novo, dessa vez não fui eu...

Eu não estava no lugar errado, na hora errada, nem estava no lugar certo. Eu só estava naquele lugar, só queria ver o tempo passar.

Mas a vida trocou as bolas, foi a vida que mandou eu entrar

E eu disse: - Não, Vida! Dessa vez você não pode mandar!

A vida já me ensinou tanto, que eu me sentia na obrigação de alertar:

- Vida, repare devagar, isso não vai funcionar!

Acho que para ela soou como um grande blá blá blá

A vida errou o tempo, o modo e o lugar. Acertou no tamanho! O problema, é que ela não estava mais lá para me ajudar a carregar, era grande!

A vida percebeu a confusão. A vida retomou sua razão. E achou melhor dizer não. Seguiu seu rumo, sem nem se importar.

Logo pensei, e essa conta quem vai pagar?

Eu fiquei lá, tentando falar, explicar, convencer, mas a vida já sabia o que fazer. Ela foi em frente, sem nunca parar.

E eu continuei querendo lembrar em que momento da vida eu me deixei enganar. Droga, Vida! Dessa vez eu não queria brincar!

E foi aí que eu me lembrei, a vida não tem essa nossa mania de perguntar, ela é como o vento que quando passa muda todas as folhas de lugar.

Só que a vida nunca para de passar, e a bagunça fica para gente arrumar.

- Vida, volta já aqui! Dessa vez você vai ter que assumir!

Brincalhona! Passou bem do meu lado e eu nem vi!

Ah! Tá certo! Já entendi. Melhor dar tchau logo e começar a limpar...

Logo ela volta com mais uma lição, dessa vez vou me preparar!

- Ahn? O que? Ei! Espera, quem é você?


Ahh não! De novo, não! Lá vem ela... se seguuuuuuuuuuuuuuu....!




sábado, 25 de abril de 2015

"Coisas da Vida"

Da série Eu e a Vida:

Coisas da Vida

Era uma linda manhã de sábado, lá estava eu, sentada no ponto de ônibus, ainda sonolenta. Mesmo atrasada, não me incomodei com a demora. Pelo jeito logo passaria um, o ponto estava cheio.

Eu estava ali, distraída, perdida em meus pensamentos. Notei se aproximando uma moça muito bonita, bem vestida, olhando para os lados meio confusa. Quando ela chega mais perto, percebe as pessoas paradas no ponto de ônibus e, também resolve parar. Eu continuei olhando para ela, atraída por aquela beleza diferente e comum ao mesmo tempo. Tive a sensação de que a moça não sabia muito bem o que estava fazendo ali. E, agora mais perto, eu vi que ela não era tão jovem como eu pensei. Mas era realmente muito bonita.

Chegou um ônibus, não era o meu. Continuei sentada olhando as pessoas entrarem, o dia estava tão lindo que eu estava sorrindo, sem pensar em nada, apenas sorrindo. A mulher, que estava por último na fila, esperando sua vez de entrar no ônibus, olha para mim e sorri de volta. E nessa hora eu tive certeza que ela não sabia aonde estava indo, pois imediatamente ela desistiu da fila e resolveu esperar o próximo ônibus. Ficou parada ao meu lado, também sorrindo. Eu abaixei a cabeça, sem graça, por ter sido pega no flagra na minha observação, mas logo levanto e volto a observá-la. Era fato que aquela mulher não era igual a nenhuma outra, tinha os cabelos extremamente brilhantes, um olhar terno, ingênuo, e ao mesmo tempo muita sabedoria, e muito mais, que fazia com que eu continuasse olhando.

Já sem jeito, eu resolvo puxar uma conversa, como quem não quer nada:

- Quase errou o ônibus?!

- Não, não. Mudei de rumo!

“Percebi”, pensei eu em um tom meio julgador.

- Meu nome é Ana Letícia.

- Eu sou a Vida. Ela respondeu muito simpática

- Vida? Bonito nome! Vida de que?

Ela me olhou meio confusa, me deixando confusa, pois ao mesmo tempo que ela parecia não saber onde estava, ela me parecia tão sábia.

- Como assim Vida de que? Depende... de tudo!

Eu ri, com certeza ela teve uma noite intensa, e ainda estava sobre efeito de algum narcótico, apesar da aparência limpa. Mas agora quem me observava era ela, e tive a impressão que ela estava pensando exatamente a mesma coisa de mim. Naquele momento achei que iniciar uma conversa não foi a melhor ideia do mundo e torci intensamente para que meu ônibus chegasse logo. E torci mais ainda para ela não pegasse o mesmo.

- Você não tem sobrenome? Perguntei.

- Não, eu sou só Vida. Vida das pessoas, das plantas, animais e por aí vai.

Percebendo o tamanho da loucura da moça resolvi não questionar e entrei na brincadeira.

 - Hum! E para onde a Vida vai? Perguntei segurando a risada pelo trocadilho infame.

- Não sei. Respondeu no mesmo tom tranquilo de antes. – Me perdi, e agora preciso de uma carona.

Nesse momento, comecei a ficar preocupada com a situação daquela mulher, olhei ao redor pensando no que fazer e foi aí que eu me dei conta que o ônibus já estava demorando demais. Olhei em volta e vi que o carro no posto de gasolina era o mesmo há tempos e as pessoas na calçada não mudaram de lugar. Havia um silêncio inacreditável.

- Parece que o tempo parou. Falei em voz alta.

- Sim! Eu parei para você!

Disse ela naturalmente, sorrindo, sempre sorrindo. Um sorriso que iluminava seu ser. E me deixava cada vez mais confusa. Apesar da loucura toda, ela realmente parecia estar falando sério.

- Você está me assustando, Vida!

Disse aquilo querendo desacreditar, mas quase acreditando. A mulher olhava na mesma direção que eu, mas ao invés de espantada com aquela cena estática, ela olhava com tranquilidade. Como se esperasse o meu tempo de compreender.

- Por que assustando, Ana? Eu sou a Vida, não a morte! A morte sim, quando pede carona, deve assustar as pessoas, com aquela roupa preta e sua foice.

Ela riu, e eu também. A Vida sabia ser engraçada. Mas eu, na ânsia de entender aquilo tudo, logo continuei o interrogatório:

- Vida, mas eu não estou entendendo nada, por que tudo isso? O que você está fazendo aqui? Como assim se perdeu?

- Eu errei o caminho, tropecei, e quando levantei não sabia mais onde estava. Agora tenho andado procurando o ponto de onde parei.

- Você se perdeu há muito tempo?

- Sim. Nem sei quanto. E parece cada vez mais difícil de me encontrar. Eu chego perto das pessoas, mas elas não querem saber muito de mim.

- Mas as pessoas vivem, certo? Então você está com elas?

Perguntei aquilo e franzi o cenho, espantada com a minha própria pergunta. O que não causou o mesmo efeito nela, que respondeu naturalmente, com a mesma tranquilidade desde o início da nossa conversa.

- Sim, eu estou com as pessoas, mas elas não me notam.

Olhei para ela com um aperto no peito, me sentindo culpada, pois algo me dizia que eu estava incluída naquelas pessoas.

- Tudo bem, eu não tenho pressa.

Me espantava a calma com que falava aquilo tudo, a ternura que havia nela. Eu naquela situação já estaria descabelada, chorando pelos cantos, desesperada... Mas que diabos! Pensei me repreendendo, lá estava eu de novo, analisando aquilo como se fosse real. É claro, que logo eu acordaria, aquilo não passava de um sonho.

- Não é sonho, Ana! Se você preferir e posso deixar o tempo correr normalmente, mas seria um desperdício, já que agora nos encontramos.

Meu coração disparou, e senti o sangue se esvair do meu corpo. E a voz demorou a sair.

- Não, está ótimo! Parece que o ar está mais leve, o sol brilhando mais, as pessoas... engraçado ver as pessoas assim. É uma sensação tão boa, nunca senti nada parecido.

Naquele momento comecei a reparar em tudo que estava a minha volta, paralisado ainda. Olhei para o céu e vi um pássaro, congelado, com as asas abertas. Vi um homem abaixado na porta da sua padaria dando uns pedaços de frango a um cachorro magro. Vi a formiga carregando uma folha no chão, determinada. E vi tantas outras coisas, que há muitos anos não parava para olhar. As flores, as cores. Tudo.

- É tudo tão bonito! Disse.

Começava a perceber, o que aquela mulher falava. Meu pensamento, ao contrário do tempo corria a mil por hora, eu tinha tantas perguntas. É como se nós vivêssemos todos os dias sem ver a vida passar...

- Sim. Ela interrompeu meu pensamento. - É o que eu disse, vocês não me veem mais. Por isso está tão difícil de retomar meu caminho.

Ótimo! Além de tudo ela lia pensamentos. Eu estava ficando angustiada, pois eu sabia que aquele encontro não duraria muito. A Vida precisava seguir.

- Mas eu não sei como te ajudar a encontrar o caminho!

- Você já me ajudou! Você sorriu para mim, Ana! E agora não posso deixar você ir como se nada tivesse acontecido.

- Ué?! Mas não é a vida que deveria sorrir para mim?!

Falei e logo me arrependi. Droga!! Lá estava eu, novamente, fazendo piadas sem graça. Sem saber como lidar com aquela situação. 
Ela me olhou no fundo dos olhos, bela, como a vida deve ser e falou:

 - Não!! A Vida só sorri de volta!


Olhei para rua, para a minha direita, e vi já longe o ônibus que eu esperava... naquele ônibus que eu nunca mais subi.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

As voltas que a vida dá!

As voltas que a vida dá!!!




Lá em casa era assim:

-      Manhêê! Me dá dinheiro?
-      Dinheiro pra que?
-      Pra eu comprar uma coisa...
-      Só vou te dar dinheiro se você me disser para o que você quer!

“Que saco!” Pensava eu, mas respondia por não ter outra saída. E, afinal, eu realmente precisava comprar aquela bala ou chiclete com figurinhas para minha coleção.

Alguns anos mais tarde:

-  Minha filha! Que tanto dinheiro é esse aqui? Dizia minha mãe ao encontrar minhas economias.
-  É meu!
-  Mas quem te deu? Daonde você tirou esse dinheiro todo?

E, sem perceber, você é acusado pela primeira vez de ser um marginal inescrupuloso ou de andar, provavelmente, vendendo seu corpo nas esquinas da cidade. E é nesse momento que você traça o plano mais importante da sua vida: “Quando eu trabalhar nunca mais vou dar satisfações do meu dinheiro para ninguém”.

Mais alguns anos se passam, você já é adulto, mas ainda não trabalha e continua passando pelas mesmas situações de quando era criança. E você percebe que falar mais alto, mais sério ou mais irritado não resolve nada, seus pais ainda querem saber para que, de onde vem e para aonde vai o dinheiro que você usa para sobreviver. E é aí que vem o segundo plano mais importante da sua vida: “eu só vou aguentar isso até me formar, depois nunca mais!”.

E a gente cresce mais um pouco, arranja um emprego, sai de casa e acha que finalmente conquistamos nossa tão sonhada alforria financeira. Agora é hora de ser livre, pensamos, sem ter que dar satisfações sobre a sua vida, nunca mais, para ninguém. Mas aí o tempo passa de novo, e você conhece ELE!!! O cara que te tira do sério, que faz você sair da sua zona de conforto. É engraçado como às vezes conhecemos uma coisa ou pessoa por tanto tempo sem nunca dar a devida atenção a ela. Mas a vida é assim, tem hora para tudo! 

E a hora chega, então não há o que fazer. Você se vê novamente abrindo o jogo. Cedendo e respondendo todas as perguntas. Mas para que resistir? Com certeza ele é alguém com quem você vai construir, juntos, uma história. É inútil lutar. Será ano após ano dividindo seus momentos e seus segredos, desde o dentista até o dinheiro embaixo do colchão. E mesmo que haja mentiras, pois todo relação carrega uma mentirinha, ele irá olhar para você, com o seu cabelo perfeitamente penteado e aquela blusa de tecido delicado, fazendo você ceder mais uma vez.

Mas, finalmente, você assume essa relação! Nao adianta mais correr, você chegou no limite. Então o encara, olha fixamente para ele, e, com o peito enchendo de felicidade, diz: 
- Até que enfim terminei meu Imposto de Renda.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Isa Jornalista






ESTÁ COMPROVADO!!!

Isabela Cersosimo não tem mais 15 anos!!!!

A descoberta foi feita pela própria vivente após comparecer aos dois dias do festival de música Lupa Luna, que aparentemente é para maiores de 18 anos.
E sem dormir resolveu comparecer a todas as atividades do dia-a-dia normalmente!
Nesse momento ela encontra-se bagaçada e com dores pelo corpo, mas acredita na sua recuperação!

"Não dá! Eles dizem que pode ter qualquer idade pra essas coisas, mas depois que você chega lá e aproveita ao máximo vê que não é bem assim!! Vou tomar as atitudes cabíveis ao caso e não vou no próximo ano, quer dizer, talvez só em um dia!"
Disse em entrevista exclusiva!

Isabela, agora, admite não ser mais uma jovenzinha, mas ainda recusa-se a assumir sua verdadeira idade.

Polly Drewinski Que acompanhava Isabela estava no evento declara em nota oficial que também não tem mais idade para estas coisas, mas que continuará participando até de fato não aguentar mais.

Em 21 de maio de 2011, Curitiba, PR.



CLASSIFICADOS

VENDE-SE FALCON!
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Ele cumpriu sua missão em minha vida, deixando muitas marcas de alegria. 
Agora Falcon busca novos desafios. Outras vidas para completar.
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Preço: R$ 6.900,00 (negociável)

Em 7 de janeiro de 2013, Itapiranga, SC.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Vícios e Indícios


Vícios e Indícios

Ela entra na casa, mas não o encontra. A casa que não era lá muito organizada estava especialmente bagunçada naquele dia. O primeiro olhar é em direção à cozinha. Gavetas abertas e reviradas sugeriam que alguém esteve ali, procurando apressado por algo. “Teria sido um assalto?” pensou ela. A água da torneira quente corria intensamente, a fumaça que saía agilizou sua reação que a fez correr para fechá-la. E com o fim da água ouviu o sutil som da chama piloto se apagando no aquecedor de gás posicionado na área logo ao lado. “Estaria tomando banho?” pensa outra vez. 



Anda pela casa como quem tenta entender, observando os rastros. Agora na sala, a confusão é completa. Papéis amassados e pequenos pedaços de madeiras espalhados pelo chão. Cinzas completavam o cenário que já era bastante confuso. Meio atordoada junta algumas das lascas e não sabe identificar a procedência, mas nota que estavam parcialmente queimadas. “Não sei o que pensar!” pensa ela dessa vez. 




No quarto, o troféu empoeirado que há anos esteve no alto do guarda-roupa agora aparecia em pedaços pelo chão. Extremamente pesado, deixou a marca exata de quando atingiu o assoalho. A base de uma madeira escura justificava as tiras encontradas na sala. “Teria sido defesa pessoal” Disse ela em voz alta, olhando rapidamente a sua volta com medo de que bandidos ainda pudessem estar lá. Onde estaria a vítima? 


Moedas espalhadas. “Com certeza houve um assalto!” Conclui ela olhando para o pequeno pote de vidro, agora quebrado, que servia de abrigo para os trocos sem destino. 


Apesar de preocupada, resolve esperar por notícias antes de tomar qualquer atitude. Enquanto tenta por seus pensamentos no lugar ela vai recolhendo os objetos do chão. Tenta reparar os pequenos estragos pelo caminho. Até chegar novamente na cozinha, onde começa lavar a louça imediatamente. A pia transbordava de copos, pratos e panelas. Mas, o que lhe chamava a atenção, era a quantidade de embalagens plásticas, palitos de fósforos, queimados ou não, e pedaços de papel. Todos ensopados pela água residual no mármore. Irritada, e até enojada, vai jogando tudo que vê na pequena lixeira no canto direito da pia. E, foi justamente em um desses lançamentos que ela, distraidamente, ao levantar a cabeça leva um novo susto.


Lentamente, como quem desacredita no que vê, ela se aproxima do fogão. Joga um pequeno maço de palitos de fósforo molhados no lixo e cuidadosamente analisa mais aquele achado. Era um fogão simples, quatro bocas, sem acendedor automático. Mas, como que por um milagre, conservava a parte de vidro da tampa intacta, enquanto que, por outro lado, a extremidade de plástico branco no alto da tampa levantada encontrava-se completamente deformado. Derretido, devido ao fogo que evidenciava ter estado ali. Na parede, desenhos abstratos feitos pelo fogo completavam a cena. “Uma pequena explosão!?!?”. 


Rapidamente correu para a lavanderia buscar um pano, para uma tentativa inútil qualquer. Eis que ao esticar o braço em direção ao tanque ela se depara com a última e derradeira prova, que completava, enfim, a cena daquele crime: O aquecedor de gás, que possuía três mínimos visores de vidro, que serviam para certificar-se de que a chama estava acesa, agora tinha apenas dois. O vidro do visor central, em forma de losango, era o maior de todos, (mesmo assim era tão pequeno que não se podia passar o menor dos dedos) e agora estava quebrado. Uma das pequenas tiras de madeira, até a metade queimada, ainda encontrava-se posicionada, como uma estaca cravada, no centro do painel. Provando o ato incompleto e ineficiente do desesperado. Mais um desenho se fazia pelo fogo, agora no metal branco daquele aquecedor de gás com piloto automático. 


De repente, o barulho de chaves a faz saltar. Mais do que depressa corre em direção à porta, abrindo-a sem pensar. E lá estava ele, satisfeito, sorridente. Na mão esquerda um isqueiro vermelho, novinho em folha. E na direita, levanta vitorioso, um cigarro aceso, já pela metade: 


“Problema resolvido!” Diz o viciado. 




domingo, 16 de dezembro de 2012

Sr. Deus


Prezado Sr. Deus,

Venho através deste, respeitosamente, pedir uma extensão do prazo de fim do mundo.

Entendo que o senhor tenha pressa, a coisa está mesmo feia. Mas temo dizer que ainda não pude cumprir e finalizar algumas tarefas de cunho pessoal, imprescindíveis para que eu viva um bom encerramento do Planeta.

A lista estava um pouco extensa, então, depois de muito ponderar, selecionei alguns itens mais importantes para negociar com vossa autoridade, quem sabe, um ou dois anos a mais no calendário. Devido à gravidade da situação terrestre abri mão de algumas dessas necessidades pelo bem maior da nação. Mas, ainda assim, me vejo impossibilitada de seguir para inexistência sem antes eliminar alguns itens da minha lista de ‘coisas a fazer antes da senilidade’.

Ao invés de sair em um desfile de escola de samba como rainha de bateria, que medindo pela Susana Vieira poderia levar uns 40 anos ainda, aceitarei apenas uma vaga em alguma ala qualquer de fantasia igual. Desisti de saltar de paraquedas, afinal os cursos e a certificação são muito caros para pouco tempo de uso. Troquei por asa delta, mesmo sabendo que a sensação possa ser parecida com cair em rachaduras gigantes quando o chão estiver se abrindo, gostaria de poder postar uma foto no Facebook com os braços abertos.

Falando em fotos, já abri mão do meu painel com uma foto em cada uma das sete maravilhas do mundo. Acho que não fará mais tanto sentido quando ele deixar de existir. Mas ainda assim vou querer algumas: apoiando a Torre de Pisa torta, com as pirâmides do Egito na palma da mão, com panos na cabeça abraçando crianças na África, entre outras de igual importância.  E numa dessas viagens já aproveito para conhecer algum artista de Hollywood. Vou precisar da sua ajuda para isso, assim agilizamos esse ponto. Afinal, por conta dessa sua decisão imediatista não terei tempo para ganhar o Oscar de melhor atriz como havia planejado. O meu livro terá ficar algumas semanas a menos na lista de mais vendidos, mas eu entendo.

Deixo aberto um espaço para contrapropostas, pois em caso de não concordar com algo posso reavaliar as prioridades. Infelizmente não há nada que vossa Divindade possa fazer quanto ao meu retiro espiritual no Tibet, vou precisar disso na eternidade.

Quanto àquele velho pronunciamento do presidente dos EUA para o mundo, como sempre vemos nos filmes, o que você acha de repensar? É meio clichê demais. Se eu pudesse dar uma opinião, acho que cada país deveria cuidar do seu próprio fim do mundo. Aqui no Brasil nada de Dilma, eu voto para ser o Lulu Santos, ele estava muito bem naquele programa da Globo, você viu? Ele poderia cantar alguma trilha sonora de novela famosa. E, além do mais, daria um ar menos dramático à situação.

E, meu querido Deus, estava aqui analisando e encontrei algumas oportunidades de melhorias nessa história de fim do mundo. Você poderia marcar a próxima data para o início do inverno né? Final de dezembro os presentes de Natal já estão comprados e alguns já até pagaram umas parcelas da viagem de férias. É um desperdício não poder aproveitar. E nós não gostamos de desperdícios, lembra? Eu sei, eu sei, no hemisfério norte é verão quando aqui é inverno, mas aí podemos encontrar datas diferenciadas para os fins do mundo, meio mundo de cada vez. O que acha?

Bom, não quero tomar mais seu tempo, por que as coisas devem estar agitadas aí em cima. Muita gente chegando, muito estrago aqui embaixo. Enfim, te desejo boa sorte com o Novo Mundo. Essa ideia de contratar o Niemeyer foi muito boa!

Aguardo sua resposta ansiosamente.

Desde já agradeço a compreensão.

Atenciosamente.

Filha.