segunda-feira, 28 de março de 2022

“Eu sou contra a violência, mas no caso do Will Smith...”

 
“Eu sou contra a violência, mas o Will Smith fez certo!!???”

 

Observando as discussões fervorosas sobre os acontecimentos do Oscar desse ano, e eu adoro ficar lendo os comentários das pessoas (amante do comportamento humano que sou), posso dizer que, em disparada, esse foi o comentário que mais vi nas diferentes redes sociais que olhei.

Deixando aqui de lado as discussões, sobre racismo, as quais eu não tenho lugar de fala. Fiquei pensando, pensando mesmo, na régua que mede a violência que pode ou não pode.

Todos são contra violência, desde que...

Defendeu a esposa, aguentou muita piada inconveniente, não aguentou tantos anos de abuso verbal, muita pressão.

Ok. Tudo isso é real. Mas eu só consigo pensar é que de todas as formas que ele poderia ter se posicionado, se indignado e de todas as formas que ele poderia ter defendido a esposa naquele momento ele escolheu um tapa na cara, uma agressão física.

E qual é a régua, ou regra que diz que nesse caso pode?

Porque eu fico pensando nos milhões de jovens que ele influencia entendendo que é bonito pra caramba defender as suas esposas e suas namoradas com tapas, ou com socos, mas aí não estão no Oscar, estão nas ruas, nas escolas, nos bares, mas aí o comediante da piada ofensiva pode revidar, porque ele também foi agredido, mas e aí... e aí... MAS E AÍÍÍÍÍ????

Se a minha dor, se a minha ofensa é liberdade para acertar a cara do outro, eu te pergunto, qual é a régua dessa dor? Uma dorzinha já vale? Ou é só a dor que envolve doença? Porque, eu tenho visto tantas dores, estamos vivendo em um momento tão difícil, as pessoas tão doloridas, que é difícil saber... olha a guerra lá!? 

Quem dessas pessoas ganha o “vale soco” e quem tem que saber que a sua dor não é suficiente para violência? Afinal, somos todos contra a violência, certo?

Dá para separar as violências? Dá para ser só MEIO contra a violência? Uma pergunta genuína de alguém que não sabe ao certo o que pensar nesse quesito.

Não! Na verdade, eu sei bem o que eu penso: Eu sou contra todos os tipos de violência!

É ser muito radical isso? Tem violência que pode? Ou seja, a da piada não pode, mas a do tapa pode?! Afinal, “sou contra, desde que...” Legítima defesa eu ouvi alguns dizendo.  

Eu não sei... minha opinião é que havia muitas outras formas de revidar a violência da piada, e aquela foi a pior. Não se resolve violência com violência, não mesmo!

Percebam, eu não estou avaliando o tapa em si, estou refletindo sobre a reação ao tapa. E se aconteceu, sim, muitas vezes acontece, me recuso a naturalizar ou justificar esse ato.

A gente evoluiu, as civilizações melhoraram para que a gente tenha mais escolhas, mais possibilidades de lidar com as situações. 

E Will Smith, o grande favorito da noite, tinha outras opções. Tinha uma voz potente naquela noite, mas escolheu usar a mão.

Aí você vai dizer: “Ah, mas na hora que o sangue ferve, se mexer com quem eu amo eu faço o mesmo”.

Afinal, a violência é relativa? Cada um sabe a hora que pode ou não? E se um dia for você que erra na dose da piada, pesa na “brincadeira”?

Aonde isso pode parar? Peraí, vou perguntar pro Putin...

Claro que, eu abomino esse tipo de piada. A brincadeira com a Jada Smith foi terrível e ela merecia, sim, ser defendida ou se defender. Com certas coisas não se brinca, e tem muitas formas de deixar isso claro!

É hora de mudarmos as piadas, mas sem aceitar os socos.

Bem, não vou entrar na questão cultural da forma de humor desses norte-americanos que adoram piadas de mau gosto e, inclusive, tem programas em que a pessoa vai só para ser agredida verbalmente.

Muita coisa precisa ser revista e que esse tapa sirva para isso.

Mas, afinal, qual é a régua? Quem vai poder bater e quem não? 

E aí? Somos ou não somos contra a violência?

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#oscar2022 #willsmith

sábado, 29 de maio de 2021

Mente x Dente

 Mente x Dente

“Qual é o seu maior medo?” Ela perguntou a si mesma.

Diversas atrocidades surgiram em sua mente. 

"Medo de espirrar na igreja" ela respondeu. Mas sorriu, sabendo que a pergunta era outra.

“Qual é o seu maior medo?” Insistiu.

Ela silenciou, como em raros momentos a mente silencia. E esse vazio mental que a gente tanto busca foi percebido, e ela aproveitou. Milésimos de segundos provavelmente, mas ela viveu intensamente aquela paz. Talvez porque ela soubesse que essa sensação estava prestes a terminar. E esse saber não estava na mente, estava no medo.

Só uma verdade tão dura poderia ser precedida por um silêncio tão vivo.

"Medo de não conseguir", a mente gritou. E aquele grito durou anos, com todas as lembranças de vergonhas e fracassos que a mente tinha guardado em algum lugar.

Mente que não mente, mas prega peças.

“Medo de não ser ouvida, de não ser percebida”, a mente continuou. Chega! Ela já estava satisfeita.

“Medo de a vida passar e os grandes feitos nem chegarem a ser feitos.” Mais um disparo.

“Agora é a hora de ir na igreja espirrar, né?!” Ela retrucou, sarcástica. 

Devia ter parado lá atrás. Interromper o Padre, com ecos virais em tempos de pandemia já é aterrorizante o suficiente.

O silêncio que antecede a verdade, a piada que distrai a ferida, o medo de não ser vista... tudo isso ela viu.

"Puff!" Soltou o ar pela boca, com um certo desprezo.

E agora, fora da mente, ela falou com a boca para que os ouvidos pudessem testemunhar: “Isabela, você não vai à missa. ”




segunda-feira, 16 de novembro de 2020

ERRATA "...e quando é a vida que erra? - Da série: Eu e a Vida

A Vida Não Errou


Por muito tempo pensei: e quando é a Vida que erra?

Até sobre isso escrevi! Em um texto antigo, da Vida, me queixei! 

Bem, só posso dizer que me enganei... A vida não errou.

Só agora percebi que estar naquele lugar, que só querer ver tempo passar, não era paz, nem contemplação.

Às vezes parar é andar para trás.

E foi lá, naquele lugar, que eu vi tudo mudar.

Mentira! Naquele momento eu nem podia enxergar.

“Ah! Vida volta já aqui, preciso agradecer, preciso dizer que entendi.”

A Vida não para nem para escutar. Trabalho nosso é gritar: “VIDA, EU PERCEBI!!!”

Ahhh e como eu percebi... Tempos atrás eu achava que ventanias eram só vento, hoje eu sei, que é momento.

Tempos atrás, eu abria a janela, e me sentia a contento.

Tempos atrás eu vivia em silêncio... talvez eu já soubesse, era só questão de tempo.

Tem uma frase que diz, que quando Deus fecha uma porta, ele abre uma janela... hoje eu digo, se você está feliz na janela, é melhor trancar a porta! Por que se você se distrair, a Vida te arranca pelos cabelos...

Falo por mim, ficava vendo o tempo passar, eu não percebi a Vida entrar.

Maravilhosa!

“Ah, Vida, era só terça-feira! ”

E quanto tempo foi necessário para eu me perder nessa ventania? Tempo algum, eu diria.

Eu só precisei respirar e, num segundo, a janela já era em outro lugar...

Só depois que o tempo passou, só agora que o vento acalmou, eu consegui entender...

Se houve um erro, e talvez nem tenha tido. Mas se houve um erro, esse erro foi eu querer mais! Já era demais!!

Sim, naquele momento era demais, demais até para perceber que era presente.

Era presente! Era presente, meu Deus! Era presente! Na época eu achei que era amor, mas era só presente.

Era tão grande que foi pesado demais para carregar. A gente sempre quer carregar os bons presentes, né?!

 Mas tem embrulho que só o tempo desembrulha. E quando abre a gente entende que é o presente que carrega a gente.

Eu não estava atenta! Achei que a Vida tinha me deixado ali,  mas ela me carregou e eu me perdi.

Tonta ainda, levou um tempo para que eu pudesse ver, um tempo para conseguir entender, a Vida não brinca. Com ela é tudo para valer.

Saibamos! Formigas são pequenas demais para perceber. E nessa vida, meu amigo, somos apenas formigas.

Mas não tenha medo, a Vida já sabe o que fazer. A Vida não erra!

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Esse texto foi escrito em Resposto ao texto "E quando é a vida que erra" - Leia aqui: 
https://cronicasdeumaisaaguda.blogspot.com/2015/05/da-serie-eu-e-vida.html

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Força, Fé e Fod@#-$e

Força, Fé e Fod@#-$e


Ah, não! Mas perae.. 

Não ter foco nunca foi uma escolha minha! 

Você não nasce e escolhe: "Ah! Sim, sim, com foco, por favor!" 

Ou: "Não, não. Foco!? Prefiro não, obrigada!"... 

 Eu fico vendo essas histórias de sucesso e elas sempre terminam a mesma lição de moral -  "Com foco e determinação..." Aff!!!

Eu não tenho culpa de gostar de muitas coisas. Só gostar, não! Eu gosto e sou boa em muitas coisas ... 

Mas daí tem aquela palavra. - Excelência - Ahh, eu odeio  essa palavra!! Eu não sou excelente em nada...! 

Mas também, eu não fiquei 17 anos treinando para dar a  tacada perfeita.  E nem nunca pratiquei piano 97 horas por dia! Não dá, né!?

Outra palavra que eu odeio é "sempre"... Ohhh palavrinha superestimada, hein!!!

 “Eu sempre soube o que eu queria da vida...”, “eu sempre me dediquei muito...” 

Às vezes eu não me dedico muito! Tô sendo honesta... Sempre é tempo para caramba, poxa! 

Minha mãe que gosta, vive dizendo: “Você sempre larga as coisas pela metade”... “Sempre pulando de galho em galho!”

Isso não é verdade! 

Esse final de semana, por exemplo, aprendi a fazer crochê... Nossa! Mandei bem demais! Fiz um bichinho... do início ao fim... Te mostro se você quiser! 

Terminei e foi ótimo... só praquele dia, né?! Crochê realmente não é para mim! Mas se eu continuasse, certeza que ia fazer sucesso! Se eu tivesse um pouquinho mais de foc....

 Ah! Fod@#-$e


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Sonho, Imaginação, Rita Lee e Fernanda Young


    Eu sempre tive uma relação esquisita com meus ídolos. Bem ‘Fantástico Mundo de Bob’, sabe?!

    Escritora que sou, a imaginação aqui não tem muito limite, mas nunca fui de escrever ou tentar contatos, embora até tenha feito algumas vezes. O que eu gosto mesmo são das horas e horas que passo com eles, sempre sentados em algum lugar bem gostoso tomando uma cervejinha ou um chá, dependendo do convidado do dia (tudo dentro da minha cabeça, é claro!).

    O bom da imaginação é que não importa se estão vivos ou mortos, a conversa é igualmente fascinante... mas, o interessante é que recentemente me dei conta, com a Fernanda Young, que quando mortos, a sensação é que deixa de ser uma conversa imaginária... Parece que finalmente eles estão do outro lado ouvindo mesmo... Bob, né!? Eu avisei!!!

    Tem um outro lugar que eu, artista que sou, encontro com meus pares frequentemente... sim, nos sonhos!!!

    E confesso que é muito melhor do que numa simples imaginação. No sonho acontece coisas inimagináveis! É sério... A 'Bob' aqui te surpreenderia... A lista de artistas com quem eu já sonhei é imensa, sejam eles nacionais ou internacionais, famosos ou nem tanto, aqui, nessa caixola, não tem chapéu seletor!

    Tem alguns sonhos, no entanto, que conseguem me surpreender ainda mais... essa noite, por exemplo, eu estava comendo minha lasanha, de boa na livraria, quando eu vejo a Rita Lee vindo em minha direção! Ela deu risada quando viu meu susto. Eu procurava um lugar para deixar o resto da lasanha falando: "Que puta sacanagem! Conhecer a Rita Lee com a cara cheia de molho!"

    O que é super esquisito, porque eu não gosto de molho! Eu não contei para a Rita naquele momento, mas eu tinha molho até do dedão do pé!”. De fato, uma sacanagem!

    Especialistas de sonho, por favor me ajudem: O que significa molho de tomate no dedão do pé?

    Enfim, a Rita riu da minha cara, eu superei o molho e a gente começou a se divertir muito dentro de uma loja gigante de departamentos. A gente corria batendo nas coisas no setor da pescaria (especialistas, por favor, ajuda nessa parte também!). Depois fomos para o setor de livros. Rita pegou um livro qualquer, muito divertida, e falou que ia fazer uma “prank”, autografou no meio de uma página e deu um beijo na folha de batom vermelho... 

    Eu achei demais!!! E tentando ser uma "fã descolada" não peguei o livro! Mas pedi que ela fizesse o mesmo, em um livro para mim. E lá fomos nós procurar nas prateleiras, ela queria saber qual livro... e eu não achava... que aflição que dá quando a gente não acha algo em sonho né!? "O último da Fernanda Young" ...eu falei... “ainda não li! ” Sem falar nada ela começou a me ajudar a procurar, mas não achamos!

    Muitas coisas aconteceram e eu sabia que estava chegando ao fim a brincadeira e ainda não tinha uma foto com a Rita... então, numa decisão apressada, saí determinada, muito apressada, mas não conseguia correr (especialistaaaaaas!), em busca daquele livro já assinado! Eu precisava chegar no caixa antes da Rita ir embora, porque, na verdade, eu sabia, que se não tivesse uma foto, ninguém nunca acreditaria!!! Eu andei, eu andei, eu andei mais rápido e puff... acordei e perdi o sono...

    Ritaaaaa, fiquei sem a minha foto!

    Quando a Fernanda Young morreu, eu fiquei pensando nessa relação maluca com ídolos que a gente tem, pensando que eu nunca havia tentado falar com ela, que aquelas conversas nunca sairiam da minha imaginação. Hoje, a gente conversa bastante, mas talvez aí já seja mais uma loucura do que qualquer outra coisa.

    Eu fui na missa de sétimo dia dela, foi a melhor coisa que eu fiz. Cheguei cedo, fiquei ali observando aquele evento tão familiar e espetacular... meio perdida, fiquei ali olhando a igreja, sempre me encantam as igrejas! Em algum momento, sentada naqueles bancos, que fazem você pensar em muitas coisas, eu pensei sobre essa relação louca de ídolos e fãs, e sobre a oportunidade que eu nunca mais teria. Nesse exato momento, BUM, Rita Lee (agora de verdade) passa bem do meu lado! Meu Deus!!! 

    Isso eu nunca poderia imaginar... eu e ela aguardando a missa juntas... “Eu vi Rita Lee comungar por duas vezes, numa missa de domingo” me veio essa frase na cabeça na voz de Raul Seixas (isso acontece também) ... nem sei se era domingo! 

    Eu nunca pude abraçar ou conversar com a Fernanda Young, mas nesse dia ela me proporcionou abraçar Rita Lee... Agora, além de conversas incríveis, eu devo isso a ela também! Bem, acho que ídolos só são ídolos, porque são inacessíveis!

 

    Moral da história: Evite perder oportunidades, elas raramente voltam! Vou passar a vida arrependida de não ter pego aquele livro assinado!


 

PS.: Ministério da Loucura adverte: meus sonhos não são premonitórios em nenhum nível. Já sonhei com muitos famosos, Antes de Rita, foi Cláudia Raia, antes de Cláudia de teve Jennifer Aniston, e assim por diante...

PS2.: eu perdi a oportunidade no sonho, mas se alguém quiser me ajudar a encontrar a Rita Lee para eu finalmente tirar minha foto com ela, eu aceito! Obrigada!

sábado, 4 de julho de 2020

Sr. Deus, precisamos falar sobre Pandemia

Prezado Sr. Deus!

Lembra de mim? Isabela...2012... ?!?!

Venho através desta, novamente, retomar aquele assunto da última carta.

Vossa excelência, eu preciso perguntar: chegou a hora, né?

Já se passaram mais de três meses de pandemia aqui no Brasil e eu tive bastante tempo para avaliar os fatos. E a cada detalhe analisado, ia me aproximando mais de você.

Foi você, não foi? Fala a verdade! Ou será que o responsável pelos detalhes é aquele seu parente do subsolo?


Não... não...isso é coisa sua, não é?!

Vossa Magnificência deve estar se perguntando como eu descobri tudo. Bem, tenho que confessar que não foi fácil: inicialmente, aquela chuva de informações, estudos, teorias me deixaram bem confusa. Foi uma jogada de mestre!

Mas não precisou muito tempo para eu me dar conta:
quem conhece tão bem o ser humano para saber que só algo dessa magnitude iria atiçar o ego de todos a tal ponto de a ansiedade fazer com a que a cara se mostre antes das falsas intenções? 

Foi uma excelente retirada de máscaras em massa (eu só não sei se o uso das máscaras descartáveis foi descuido seu ou é coisa de pai que jamais nos deixaria completamente desnudos).

E isso tudo com um vírus! Um vírus! Tem coisa mais “old school”? Mostrando que os anos 1900 ainda estão aí para abalar...

Enfim, depois de ter passado por raiva, tristeza, medo, conformação... eu comecei até admirar um pouco esse tal de Corona. Afinal, que estratégia de marketing incrível! Parece até aqueles lançamentos modernos de funk: joga uma intriga no ar, deixa o povo doido tentando descobrir de quem é a culpa, acompanhando loucamente os “stories” e depois BOOM: música nova!! Genial! 

Receba aqui o meu aplauso, ó, MC God, tão milenar e tão atual! Conseguiu deixar quase a população mundial inteira na frente das telas com a pergunta que não calava: “é só uma gripezinha ou não é, Silvio?” Logo tive certeza: tem alguém por trás disso! Uau! 

Às vezes fico imaginando: a qualquer momento, abre uma cortina gigante e os 50.000 entram correndo e gritando: "acertou quem falou alergia!!"

O senhor já pensou em lançar algum curso de marketing digital?! 

Ó, Todo Poderoso! Eu sei o que você está pensando agora... te conheço! Perfeccionista, já deve estar aí encucado com o próximo plano, dessa vez englobando os excluídos digitais e aqueles que não puderam parar para que a gente ficasse em casa! Eu sei que você vai conseguir. Deixo aqui a provocação... Me surpreenda!

Mas não seja tão exigente consigo mesmo, você já abalou Bangu. Fenomenal! Um teste único para a humanidade toda!! Tipo um Vestibular do Mundão! 

Saquei tudo, bicho, uma doença que ninguém pode ver, mas todos podem pegar, o dinheiro não protege; se uma pessoa pega, só descobre dias depois e não tem a quem culpar e, ao contrário, se você usa um álcool certeiro e salva alguém, também não pode se vangloriar; jovens lutando pelos idosos e, finalmente, uma Copa do Mundo em que estão todos torcendo para o mesmo time: não importa qual cientista ache a vacina primeiro, o mundo inteiro comemora!

Que mira é essa, hein?!

Mas o que entregou mesmo o jogo, o ponto em que eu vi sua digital inteirinha, foi a coletividade. Ah, que sacada de mestre! Uma doença em que só cuidar de mim não adianta; para eu estar segura, todos precisam estar seguros; fez a gente perceber a cadeia; aprender a pensar no outro; cuidar do TODO, pois só o trabalho coletivo tem resultado. Boquiaberta aqui... não dá para ver, mas eu estou!


Mas agora, ó Dono dos Mistérios do Mundo, é com imensa tristeza que pergunto...
A gente não passou, né?! No teste... não rolou, né?! 

Sei que alguns países mandaram muito bem, mas a nota final vai ser pela média? Ou os brasileiros já estão fora??


E agora? O que o senhor pretende fazer com a gente? 
Qual o seu plano? Vai ter recuperação ou é fim do mundo direto???


Aguardo sua resposta.

Atenciosamente,


Filha
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Quer ler a Carta de 2012? clique aqui 
https://cronicasdeumaisaaguda.blogspot.com/2012/12/pedido-de.html
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#cronicasdofimdomundo #cronicasdavida #pandemia 

sábado, 19 de maio de 2018

Salto Alto

Salto Alto

 Eu estou aprendendo a andar. Sim, caminhar, um passo depois do outro...

 Irônico, eu já fui a tantos lugares e planejo ir a tantos outros, nunca percebi que é preciso, antes de tudo, saber andar.

 Me sentia tão forte. Não conseguia ver que, na verdade, eu rastejava pela vida, agarrada a tanto peso, que isso nem de longe era uma caminhada, era só transporte de carga.

 Eu queria voar e algo não combinava.

  Então resolvi parar e olhar. Reconheci tudo aquilo que não era meu e carregava na bagagem... que alívio devolver a cada dono seus pertences. Agradeci o tempo que fiquei com eles, aprendi muito, mas não podia mais, eu precisava voar.

  Ainda pesava. Percebi que muitas coisas, mesmo sendo minhas, também não podia manter. Essas foram difíceis de tirar. Encontrei muitos lixos, descartei. Mas também, encontrei ouro, sim, tantos ouros, e lutei por eles, eram meus. Tanto brilho não me deixava perceber, eram do universo, e com o universo precisavam ficar.

  Então fui soltando as moedas devagar. Vi algumas rolando para longe, onde eu não podia mais alcançar. Minha respiração começou a acelerar e o medo tomou conta... eu precisava delas. Como seria sem meu ouro?

- É ouro, Isabela! Não solta. Alguém falava. 

  Logo esqueci da caminhada, e corri, atrás do que eu pude salvar, algumas moedas perdi, não chorei por elas, mas as que ficaram eu segurei mais forte. 

  E assim fui diminuindo a bagagem. Não esvaziava, mas ficava mais leve. Fui pegando o jeito e esvaziando mais, era bom, mas na hora dos ouros, eu sempre escondia uns no fundo da mochila, por segurança, pensava.

  Foram anos assim, era bom, mas não era tudo... Não foi o suficiente. Se eu realmente quisesse voar, precisava ser tudo. E chegou um momento em que eu achei, realmente achei, que a mochila estava vazia. Eu procurei na bagagem, no que restou dela, procurei no fundo, não vi mais nada. O que pesava tanto ainda?

  Abaixei a cabeça para pensar e então pude ver, debaixo dos meus pés. Olhando lá do alto reconheci, eram dois grandes blocos de concreto preso embaixo de cada pé. Me deixavam mais alta, me faziam olhar por cima, orgulhosa de mim. Mas se eu quisesse mesmo caminhar longe, precisava me livrar desse peso. 

  Sacudi os pés, como criança que pisa em chiclete, e a cada movimento o concreto ia batendo e quebrando um pouquinho, me deixava instável, era estranho. 

  Percebi que não conseguiria mais caminhar com a altivez de um leão se o concreto não estivesse perfeito, quadrado. Como ia enxergar mais longe? Saber mais? Ser maior? 
  
  O concreto era uma conquista, eu mesma moldei, cada vitória, eu acrescentava uma camada e me sentia grande. Como deixar aquilo se esfarelar e ficar pelo caminho? Não consegui. 

  Aprendi a abaixar a cabeça e olhar para ele nos momentos em que pesava demais, mas em geral fingia que era meu amigo, meu suporte. Não era, eu queria voar e o concreto não deixava.

  A mochila estava vazia, os bolsos vazios, porque eu não consigo achar um jeito de caminhar com os blocos? Caminhei até aqui com eles, para que tirar agora?

- Pra voar, Isabela... pra voar! Uma voz dizia.

    Era hora de tirar de vez. 

  Tentei de todas as formas, não saía, que desespero, eu queria muito tirar. Pensei que meu pé e o bloco fosse uma coisa só. Achei que arrancar os pés era uma boa ideia e se eu cortasse no lugar certo ainda poderia andar, só com os calcanhares. Comecei a cortar, sim cheguei a cortar, meu pé não era bom. 

  Ai, ai, doía muito, eu não devia estar cortando no lugar certo. Olhava, mas em pé não podia ver direito. A cabeça erguida me mostrava o mundo, mas não meus pés. 

  Então me abaixei, mais, mais e, então, me curvei. Foi só aí que eu pude ver a linha, nada sutil, que me unia e me separava do concreto. Será que sai? 

  Decidi, o concreto sai. Então, me curvei totalmente, olhei bem de perto e, que alegria, agora via com clareza, o concreto era meu sapato... alto, firme, duro. 

  "Agora é fácil", pensei, era só trocar de sapato. 

  Tirei na hora, salvaram-se os pés. Quero correr descalço, me jogar, ir longe, mas ainda não podia...

  Eu, distraída, os guardei na mochila, e não pensava duas vezes antes de calçá-los, quando precisava. Tão boba, esqueci que a mochila também sou eu. 

  Eles precisavam ficar para trás, pensa que é fácil? Sem eles eu era pequena. Demorei para entender, que sendo pequena seria muito mais fácil voar. 

  Então parei de novo e dessa vez, sentada, me despedi dos saltos de concreto que por tanto tempo carreguei. Precisou coragem para levantar. 

  Eles ficam e eu sigo em frente, inteira. Os pés machucados vão levar um tempo para se recuperar. Ainda meio cascudos, meio quadrados, falta equilíbrio.

Não, eu ainda não posso voar. Estou apenas reaprendendo a andar. Tenho caído bastante, a mochila vazia, só parece vazia, aprendi que é sempre bom parar e olhar mais uma vez. Eu quero correr, mas preciso ter paciência. 

- Um passo depois do outro, Isabela

 A voz que fala é chata, ainda não posso confiar nela completamente, mas estamos aprendendo a conversar. Me sinto confiante, agora já sei o que fazer quando acumular concretos nos pés novamente...

  Me sinto tão leve, mas aprendi a caminhar com calma, pois às vezes erro na força do passo e me machuco. Aliás, se no caminho te acertei alguns golpes, peço desculpas, é porque eu ainda estou aprendendo a andar...
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domingo, 14 de agosto de 2016

De repente 30!

De repente 30!


            







Ela acordou, respirou fundo e sentou-se na cama. Ela estava particularmente confusa naquela manhã, faltava uma semana para o seu aniversário, mas algo não estava certo.

Ainda tentando entender a matemática, nada básica, da vida começou a contar. No início usou os dedos das mãos, certa de que neles caberia toda a sua experiência.


Logo se deu conta que a maturidade da alma não acompanha os anos do calendário.  Dez era pouco. Dez é para quem gosta de brincar e rir de piadas bobas, para quem gosta de algodão doce e foge de legumes... pensando bem, dez até que fazia sentido, mas era pouco.

      Então ela olhou para os dedos dos pés, meio a contragosto, e aceitou aumentar a contagem, afinal sua vida já tinha algumas aventuras que seria importante contabilizar.  E então, vinte começou a parecer mais perto da realidade, já era um pouco mais madura, mas não muito. Um pouco mais inteligente, mas também não muito. Com vinte já se pode casar, já sabe o que se quer da vida, já se tem responsabilidades...

“Não, não, pode parar... vinte também não é.” Falou em voz alta.

         Agora sem muita opção, ela precisava ser objetiva, mas ainda não tinha conseguido se convencer:

“Como assim, 30???” Continuava a questionar.

“Então de repente você acorda de manhã e, BUM, tem 30? Não! Não é assim!!!”.

 Ela não tinha muito tempo, logo enfrentaria as pessoas e precisaria explicar o mal-entendido. Sem saber o que fazer se pôs a rezar:

“Querido, Deus! Acredito que tenha havido um pequeno engano, isso acontece, mas preciso que o Senhor faça, urgente, uma recontagem da minha existência, há uma divergência grave de dados! Vou dormir mais uma hora e, quando acordar fingiremos que nada aconteceu.”

Ela estava certa de que em algum momento, alguém havia adiantado os anos no calendário e esqueceu de voltar.

“Será que Deus também burlava as vidas do Candy Crush?”

Foi aí que ela lembrou do vício em joguinhos de celular, e então, aliviada, voltou para 12.  Mas logo se deu conta que com 12 ela brincava na rua e não existiam celulares.

“Droga, isso me acrescenta pelo menos uns 5”.

      E lembrou que foi com 17 a primeira vez que saiu de casa, foi ser psicóloga, mas foi com 17, também, a primeira vez que voltou, psicóloga não foi. Nesse momento, ela começou a rever todas as tentativas, idas e vindas, todos os erros e acertos de sua vida, e isso levou um tempo... eram muitos.

“Putz, então, se for assim, tô com 58!!!”

Logo se acalmou do susto, pois não era tão impossível assim, pensou nas novelas, nas manias, nas horas de sono, na Ana Maria Braga...

     “Não, se fosse assim eu estaria com 87!!!!” Ela estava em forma para 87.

“Mas eu não deveria estar aposentada?” Riu de si mesma.

Nesse momento relembrou de todos os empregos e trabalhos fora do padrão que já teve, lembrou que aceitava qualquer parada, por uma boa e nova aventura, lembrou do seu amor pelos animais e o tempo que passou com eles...

        “Certamente é 24!!” Disse animada.

Mas pensando em tudo que tinha aprendido, o quanto amadureceu, tantas pessoas que conheceu, cidades que passou, inúmeras dificuldades que enfrentou...

“Seria 41?” Caiu dura para trás com as mãos na cabeça.

Ela se virou para o outro lado da cama e decidiu não se levantar. Assim, não teria que lidar com esse tal de número. Afinal o que os olhos não veem o coração não sente. E foi nesse momento que ela também decidiu que não se olharia mais no espelho, nunca mais.

“Eu não posso assistir isso” Disse indignada.

Ela não queria ser expectadora, nem cúmplice desse crime chamado idade. Ficou ali deitada na cama mais um tempo, pensando em novas formas de contabilizar a vida. Ela não achava justo ser enquadrada numa categoria com a qual não se identificava. E ela não se identificava com esse 30. Era um susto acordar e de repente...

“Aff!!!”. Ela sabia que isso não iria funcionar.

Pensou em todos os amigos, nos Natais em família, nas viagens e lugares que conheceu, pensou nas brigas e nos romances, nas risadas e, melhor, lembrou das gargalhadas, daquelas de doer a barriga, que até esqueceu das tristezas. E se deu conta de quanto ela tinha mudado e crescido. Lembrou de tudo que passou, mas, também, se deu conta de que tudo passou, e ela ...

“Chegaaaaa!!!” Gritou!

Então ela percebeu... “De repente coisa nenhuma!!!”

Algo nela, finalmente, começava a mudar...

“Chega de você também!!!” Falava ela sozinha.

“Não! Eu tô falando com você!!!” Ela soava confusa...

”Não tô confusa! Agora eu entendi tudo. Você já pode sair, Dona Narradora! Eu assumo daqui. Obrigada!”

Oi? Uhm! Hehe... Ela parecia brincar com essa que vos fal...

”Não é brincadeira! Vou falar por mim a partir de agora!” Ela interromp...

“Eu interrompi!” Ela insist...

“Eu insisto!"... Eu insisto!

.... e, então, foi pouco antes de 30 anos que ela decidiu se livrar da personagem... e resolvi assumir as rédeas da minha própria vida ... E entendi, que a melhor idade é aquela que se tem!!!


Seja bem vindo, 30!!!!


sábado, 30 de maio de 2015

Da série: Eu e a Vida: "… e quando é a vida que erra?"

… e quando é a vida que erra?

Eu não errei de novo, dessa vez não fui eu...

Eu não estava no lugar errado, na hora errada, nem estava no lugar certo. Eu só estava naquele lugar, só queria ver o tempo passar.

Mas a vida trocou as bolas, foi a vida que mandou eu entrar

E eu disse: - Não, Vida! Dessa vez você não pode mandar!

A vida já me ensinou tanto, que eu me sentia na obrigação de alertar:

- Vida, repare devagar, isso não vai funcionar!

Acho que para ela soou como um grande blá blá blá

A vida errou o tempo, o modo e o lugar. Acertou no tamanho! O problema, é que ela não estava mais lá para me ajudar a carregar, era grande!

A vida percebeu a confusão. A vida retomou sua razão. E achou melhor dizer não. Seguiu seu rumo, sem nem se importar.

Logo pensei, e essa conta quem vai pagar?

Eu fiquei lá, tentando falar, explicar, convencer, mas a vida já sabia o que fazer. Ela foi em frente, sem nunca parar.

E eu continuei querendo lembrar em que momento da vida eu me deixei enganar. Droga, Vida! Dessa vez eu não queria brincar!

E foi aí que eu me lembrei, a vida não tem essa nossa mania de perguntar, ela é como o vento que quando passa muda todas as folhas de lugar.

Só que a vida nunca para de passar, e a bagunça fica para gente arrumar.

- Vida, volta já aqui! Dessa vez você vai ter que assumir!

Brincalhona! Passou bem do meu lado e eu nem vi!

Ah! Tá certo! Já entendi. Melhor dar tchau logo e começar a limpar...

Logo ela volta com mais uma lição, dessa vez vou me preparar!

- Ahn? O que? Ei! Espera, quem é você?


Ahh não! De novo, não! Lá vem ela... se seguuuuuuuuuuuuuuu....!




sábado, 25 de abril de 2015

"Coisas da Vida"

Da série Eu e a Vida:

Coisas da Vida

Era uma linda manhã de sábado, lá estava eu, sentada no ponto de ônibus, ainda sonolenta. Mesmo atrasada, não me incomodei com a demora. Pelo jeito logo passaria um, o ponto estava cheio.

Eu estava ali, distraída, perdida em meus pensamentos. Notei se aproximando uma moça muito bonita, bem vestida, olhando para os lados meio confusa. Quando ela chega mais perto, percebe as pessoas paradas no ponto de ônibus e, também resolve parar. Eu continuei olhando para ela, atraída por aquela beleza diferente e comum ao mesmo tempo. Tive a sensação de que a moça não sabia muito bem o que estava fazendo ali. E, agora mais perto, eu vi que ela não era tão jovem como eu pensei. Mas era realmente muito bonita.

Chegou um ônibus, não era o meu. Continuei sentada olhando as pessoas entrarem, o dia estava tão lindo que eu estava sorrindo, sem pensar em nada, apenas sorrindo. A mulher, que estava por último na fila, esperando sua vez de entrar no ônibus, olha para mim e sorri de volta. E nessa hora eu tive certeza que ela não sabia aonde estava indo, pois imediatamente ela desistiu da fila e resolveu esperar o próximo ônibus. Ficou parada ao meu lado, também sorrindo. Eu abaixei a cabeça, sem graça, por ter sido pega no flagra na minha observação, mas logo levanto e volto a observá-la. Era fato que aquela mulher não era igual a nenhuma outra, tinha os cabelos extremamente brilhantes, um olhar terno, ingênuo, e ao mesmo tempo muita sabedoria, e muito mais, que fazia com que eu continuasse olhando.

Já sem jeito, eu resolvo puxar uma conversa, como quem não quer nada:

- Quase errou o ônibus?!

- Não, não. Mudei de rumo!

“Percebi”, pensei eu em um tom meio julgador.

- Meu nome é Ana Letícia.

- Eu sou a Vida. Ela respondeu muito simpática

- Vida? Bonito nome! Vida de que?

Ela me olhou meio confusa, me deixando confusa, pois ao mesmo tempo que ela parecia não saber onde estava, ela me parecia tão sábia.

- Como assim Vida de que? Depende... de tudo!

Eu ri, com certeza ela teve uma noite intensa, e ainda estava sobre efeito de algum narcótico, apesar da aparência limpa. Mas agora quem me observava era ela, e tive a impressão que ela estava pensando exatamente a mesma coisa de mim. Naquele momento achei que iniciar uma conversa não foi a melhor ideia do mundo e torci intensamente para que meu ônibus chegasse logo. E torci mais ainda para ela não pegasse o mesmo.

- Você não tem sobrenome? Perguntei.

- Não, eu sou só Vida. Vida das pessoas, das plantas, animais e por aí vai.

Percebendo o tamanho da loucura da moça resolvi não questionar e entrei na brincadeira.

 - Hum! E para onde a Vida vai? Perguntei segurando a risada pelo trocadilho infame.

- Não sei. Respondeu no mesmo tom tranquilo de antes. – Me perdi, e agora preciso de uma carona.

Nesse momento, comecei a ficar preocupada com a situação daquela mulher, olhei ao redor pensando no que fazer e foi aí que eu me dei conta que o ônibus já estava demorando demais. Olhei em volta e vi que o carro no posto de gasolina era o mesmo há tempos e as pessoas na calçada não mudaram de lugar. Havia um silêncio inacreditável.

- Parece que o tempo parou. Falei em voz alta.

- Sim! Eu parei para você!

Disse ela naturalmente, sorrindo, sempre sorrindo. Um sorriso que iluminava seu ser. E me deixava cada vez mais confusa. Apesar da loucura toda, ela realmente parecia estar falando sério.

- Você está me assustando, Vida!

Disse aquilo querendo desacreditar, mas quase acreditando. A mulher olhava na mesma direção que eu, mas ao invés de espantada com aquela cena estática, ela olhava com tranquilidade. Como se esperasse o meu tempo de compreender.

- Por que assustando, Ana? Eu sou a Vida, não a morte! A morte sim, quando pede carona, deve assustar as pessoas, com aquela roupa preta e sua foice.

Ela riu, e eu também. A Vida sabia ser engraçada. Mas eu, na ânsia de entender aquilo tudo, logo continuei o interrogatório:

- Vida, mas eu não estou entendendo nada, por que tudo isso? O que você está fazendo aqui? Como assim se perdeu?

- Eu errei o caminho, tropecei, e quando levantei não sabia mais onde estava. Agora tenho andado procurando o ponto de onde parei.

- Você se perdeu há muito tempo?

- Sim. Nem sei quanto. E parece cada vez mais difícil de me encontrar. Eu chego perto das pessoas, mas elas não querem saber muito de mim.

- Mas as pessoas vivem, certo? Então você está com elas?

Perguntei aquilo e franzi o cenho, espantada com a minha própria pergunta. O que não causou o mesmo efeito nela, que respondeu naturalmente, com a mesma tranquilidade desde o início da nossa conversa.

- Sim, eu estou com as pessoas, mas elas não me notam.

Olhei para ela com um aperto no peito, me sentindo culpada, pois algo me dizia que eu estava incluída naquelas pessoas.

- Tudo bem, eu não tenho pressa.

Me espantava a calma com que falava aquilo tudo, a ternura que havia nela. Eu naquela situação já estaria descabelada, chorando pelos cantos, desesperada... Mas que diabos! Pensei me repreendendo, lá estava eu de novo, analisando aquilo como se fosse real. É claro, que logo eu acordaria, aquilo não passava de um sonho.

- Não é sonho, Ana! Se você preferir e posso deixar o tempo correr normalmente, mas seria um desperdício, já que agora nos encontramos.

Meu coração disparou, e senti o sangue se esvair do meu corpo. E a voz demorou a sair.

- Não, está ótimo! Parece que o ar está mais leve, o sol brilhando mais, as pessoas... engraçado ver as pessoas assim. É uma sensação tão boa, nunca senti nada parecido.

Naquele momento comecei a reparar em tudo que estava a minha volta, paralisado ainda. Olhei para o céu e vi um pássaro, congelado, com as asas abertas. Vi um homem abaixado na porta da sua padaria dando uns pedaços de frango a um cachorro magro. Vi a formiga carregando uma folha no chão, determinada. E vi tantas outras coisas, que há muitos anos não parava para olhar. As flores, as cores. Tudo.

- É tudo tão bonito! Disse.

Começava a perceber, o que aquela mulher falava. Meu pensamento, ao contrário do tempo corria a mil por hora, eu tinha tantas perguntas. É como se nós vivêssemos todos os dias sem ver a vida passar...

- Sim. Ela interrompeu meu pensamento. - É o que eu disse, vocês não me veem mais. Por isso está tão difícil de retomar meu caminho.

Ótimo! Além de tudo ela lia pensamentos. Eu estava ficando angustiada, pois eu sabia que aquele encontro não duraria muito. A Vida precisava seguir.

- Mas eu não sei como te ajudar a encontrar o caminho!

- Você já me ajudou! Você sorriu para mim, Ana! E agora não posso deixar você ir como se nada tivesse acontecido.

- Ué?! Mas não é a vida que deveria sorrir para mim?!

Falei e logo me arrependi. Droga!! Lá estava eu, novamente, fazendo piadas sem graça. Sem saber como lidar com aquela situação. 
Ela me olhou no fundo dos olhos, bela, como a vida deve ser e falou:

 - Não!! A Vida só sorri de volta!


Olhei para rua, para a minha direita, e vi já longe o ônibus que eu esperava... naquele ônibus que eu nunca mais subi.