sábado, 4 de julho de 2020

Sr. Deus, precisamos falar sobre Pandemia

Prezado Sr. Deus!

Lembra de mim? Isabela...2012... ?!?!

Venho através desta, novamente, retomar aquele assunto da última carta.

Vossa excelência, eu preciso perguntar: chegou a hora, né?

Já se passaram mais de três meses de pandemia aqui no Brasil e eu tive bastante tempo para avaliar os fatos. E a cada detalhe analisado, ia me aproximando mais de você.

Foi você, não foi? Fala a verdade! Ou será que o responsável pelos detalhes é aquele seu parente do subsolo?


Não... não...isso é coisa sua, não é?!

Vossa Magnificência deve estar se perguntando como eu descobri tudo. Bem, tenho que confessar que não foi fácil: inicialmente, aquela chuva de informações, estudos, teorias me deixaram bem confusa. Foi uma jogada de mestre!

Mas não precisou muito tempo para eu me dar conta:
quem conhece tão bem o ser humano para saber que só algo dessa magnitude iria atiçar o ego de todos a tal ponto de a ansiedade fazer com a que a cara se mostre antes das falsas intenções? 

Foi uma excelente retirada de máscaras em massa (eu só não sei se o uso das máscaras descartáveis foi descuido seu ou é coisa de pai que jamais nos deixaria completamente desnudos).

E isso tudo com um vírus! Um vírus! Tem coisa mais “old school”? Mostrando que os anos 1900 ainda estão aí para abalar...

Enfim, depois de ter passado por raiva, tristeza, medo, conformação... eu comecei até admirar um pouco esse tal de Corona. Afinal, que estratégia de marketing incrível! Parece até aqueles lançamentos modernos de funk: joga uma intriga no ar, deixa o povo doido tentando descobrir de quem é a culpa, acompanhando loucamente os “stories” e depois BOOM: música nova!! Genial! 

Receba aqui o meu aplauso, ó, MC God, tão milenar e tão atual! Conseguiu deixar quase a população mundial inteira na frente das telas com a pergunta que não calava: “é só uma gripezinha ou não é, Silvio?” Logo tive certeza: tem alguém por trás disso! Uau! 

Às vezes fico imaginando: a qualquer momento, abre uma cortina gigante e os 50.000 entram correndo e gritando: "acertou quem falou alergia!!"

O senhor já pensou em lançar algum curso de marketing digital?! 

Ó, Todo Poderoso! Eu sei o que você está pensando agora... te conheço! Perfeccionista, já deve estar aí encucado com o próximo plano, dessa vez englobando os excluídos digitais e aqueles que não puderam parar para que a gente ficasse em casa! Eu sei que você vai conseguir. Deixo aqui a provocação... Me surpreenda!

Mas não seja tão exigente consigo mesmo, você já abalou Bangu. Fenomenal! Um teste único para a humanidade toda!! Tipo um Vestibular do Mundão! 

Saquei tudo, bicho, uma doença que ninguém pode ver, mas todos podem pegar, o dinheiro não protege; se uma pessoa pega, só descobre dias depois e não tem a quem culpar e, ao contrário, se você usa um álcool certeiro e salva alguém, também não pode se vangloriar; jovens lutando pelos idosos e, finalmente, uma Copa do Mundo em que estão todos torcendo para o mesmo time: não importa qual cientista ache a vacina primeiro, o mundo inteiro comemora!

Que mira é essa, hein?!

Mas o que entregou mesmo o jogo, o ponto em que eu vi sua digital inteirinha, foi a coletividade. Ah, que sacada de mestre! Uma doença em que só cuidar de mim não adianta; para eu estar segura, todos precisam estar seguros; fez a gente perceber a cadeia; aprender a pensar no outro; cuidar do TODO, pois só o trabalho coletivo tem resultado. Boquiaberta aqui... não dá para ver, mas eu estou!


Mas agora, ó Dono dos Mistérios do Mundo, é com imensa tristeza que pergunto...
A gente não passou, né?! No teste... não rolou, né?! 

Sei que alguns países mandaram muito bem, mas a nota final vai ser pela média? Ou os brasileiros já estão fora??


E agora? O que o senhor pretende fazer com a gente? 
Qual o seu plano? Vai ter recuperação ou é fim do mundo direto???


Aguardo sua resposta.

Atenciosamente,


Filha
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Quer ler a Carta de 2012? clique aqui 
https://cronicasdeumaisaaguda.blogspot.com/2012/12/pedido-de.html
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#cronicasdofimdomundo #cronicasdavida #pandemia 

sábado, 19 de maio de 2018

Salto Alto

Salto Alto

 Eu estou aprendendo a andar. Sim, caminhar, um passo depois do outro...

 Irônico, eu já fui a tantos lugares e planejo ir a tantos outros, nunca percebi que é preciso, antes de tudo, saber andar.

 Me sentia tão forte. Não conseguia ver que, na verdade, eu rastejava pela vida, agarrada a tanto peso, que isso nem de longe era uma caminhada, era só transporte de carga.

 Eu queria voar e algo não combinava.

  Então resolvi parar e olhar. Reconheci tudo aquilo que não era meu e carregava na bagagem... que alívio devolver a cada dono seus pertences. Agradeci o tempo que fiquei com eles, aprendi muito, mas não podia mais, eu precisava voar.

  Ainda pesava. Percebi que muitas coisas, mesmo sendo minhas, também não podia manter. Essas foram difíceis de tirar. Encontrei muitos lixos, descartei. Mas também, encontrei ouro, sim, tantos ouros, e lutei por eles, eram meus. Tanto brilho não me deixava perceber, eram do universo, e com o universo precisavam ficar.

  Então fui soltando as moedas devagar. Vi algumas rolando para longe, onde eu não podia mais alcançar. Minha respiração começou a acelerar e o medo tomou conta... eu precisava delas. Como seria sem meu ouro?

- É ouro, Isabela! Não solta. Alguém falava. 

  Logo esqueci da caminhada, e corri, atrás do que eu pude salvar, algumas moedas perdi, não chorei por elas, mas as que ficaram eu segurei mais forte. 

  E assim fui diminuindo a bagagem. Não esvaziava, mas ficava mais leve. Fui pegando o jeito e esvaziando mais, era bom, mas na hora dos ouros, eu sempre escondia uns no fundo da mochila, por segurança, pensava.

  Foram anos assim, era bom, mas não era tudo... Não foi o suficiente. Se eu realmente quisesse voar, precisava ser tudo. E chegou um momento em que eu achei, realmente achei, que a mochila estava vazia. Eu procurei na bagagem, no que restou dela, procurei no fundo, não vi mais nada. O que pesava tanto ainda?

  Abaixei a cabeça para pensar e então pude ver, debaixo dos meus pés. Olhando lá do alto reconheci, eram dois grandes blocos de concreto preso embaixo de cada pé. Me deixavam mais alta, me faziam olhar por cima, orgulhosa de mim. Mas se eu quisesse mesmo caminhar longe, precisava me livrar desse peso. 

  Sacudi os pés, como criança que pisa em chiclete, e a cada movimento o concreto ia batendo e quebrando um pouquinho, me deixava instável, era estranho. 

  Percebi que não conseguiria mais caminhar com a altivez de um leão se o concreto não estivesse perfeito, quadrado. Como ia enxergar mais longe? Saber mais? Ser maior? 
  
  O concreto era uma conquista, eu mesma moldei, cada vitória, eu acrescentava uma camada e me sentia grande. Como deixar aquilo se esfarelar e ficar pelo caminho? Não consegui. 

  Aprendi a abaixar a cabeça e olhar para ele nos momentos em que pesava demais, mas em geral fingia que era meu amigo, meu suporte. Não era, eu queria voar e o concreto não deixava.

  A mochila estava vazia, os bolsos vazios, porque eu não consigo achar um jeito de caminhar com os blocos? Caminhei até aqui com eles, para que tirar agora?

- Pra voar, Isabela... pra voar! Uma voz dizia.

    Era hora de tirar de vez. 

  Tentei de todas as formas, não saía, que desespero, eu queria muito tirar. Pensei que meu pé e o bloco fosse uma coisa só. Achei que arrancar os pés era uma boa ideia e se eu cortasse no lugar certo ainda poderia andar, só com os calcanhares. Comecei a cortar, sim cheguei a cortar, meu pé não era bom. 

  Ai, ai, doía muito, eu não devia estar cortando no lugar certo. Olhava, mas em pé não podia ver direito. A cabeça erguida me mostrava o mundo, mas não meus pés. 

  Então me abaixei, mais, mais e, então, me curvei. Foi só aí que eu pude ver a linha, nada sutil, que me unia e me separava do concreto. Será que sai? 

  Decidi, o concreto sai. Então, me curvei totalmente, olhei bem de perto e, que alegria, agora via com clareza, o concreto era meu sapato... alto, firme, duro. 

  "Agora é fácil", pensei, era só trocar de sapato. 

  Tirei na hora, salvaram-se os pés. Quero correr descalço, me jogar, ir longe, mas ainda não podia...

  Eu, distraída, os guardei na mochila, e não pensava duas vezes antes de calçá-los, quando precisava. Tão boba, esqueci que a mochila também sou eu. 

  Eles precisavam ficar para trás, pensa que é fácil? Sem eles eu era pequena. Demorei para entender, que sendo pequena seria muito mais fácil voar. 

  Então parei de novo e dessa vez, sentada, me despedi dos saltos de concreto que por tanto tempo carreguei. Precisou coragem para levantar. 

  Eles ficam e eu sigo em frente, inteira. Os pés machucados vão levar um tempo para se recuperar. Ainda meio cascudos, meio quadrados, falta equilíbrio.

Não, eu ainda não posso voar. Estou apenas reaprendendo a andar. Tenho caído bastante, a mochila vazia, só parece vazia, aprendi que é sempre bom parar e olhar mais uma vez. Eu quero correr, mas preciso ter paciência. 

- Um passo depois do outro, Isabela

 A voz que fala é chata, ainda não posso confiar nela completamente, mas estamos aprendendo a conversar. Me sinto confiante, agora já sei o que fazer quando acumular concretos nos pés novamente...

  Me sinto tão leve, mas aprendi a caminhar com calma, pois às vezes erro na força do passo e me machuco. Aliás, se no caminho te acertei alguns golpes, peço desculpas, é porque eu ainda estou aprendendo a andar...
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domingo, 14 de agosto de 2016

De repente 30!

De repente 30!


            







Ela acordou, respirou fundo e sentou-se na cama. Ela estava particularmente confusa naquela manhã, faltava uma semana para o seu aniversário, mas algo não estava certo.

Ainda tentando entender a matemática, nada básica, da vida começou a contar. No início usou os dedos das mãos, certa de que neles caberia toda a sua experiência.


Logo se deu conta que a maturidade da alma não acompanha os anos do calendário.  Dez era pouco. Dez é para quem gosta de brincar e rir de piadas bobas, para quem gosta de algodão doce e foge de legumes... pensando bem, dez até que fazia sentido, mas era pouco.

      Então ela olhou para os dedos dos pés, meio a contragosto, e aceitou aumentar a contagem, afinal sua vida já tinha algumas aventuras que seria importante contabilizar.  E então, vinte começou a parecer mais perto da realidade, já era um pouco mais madura, mas não muito. Um pouco mais inteligente, mas também não muito. Com vinte já se pode casar, já sabe o que se quer da vida, já se tem responsabilidades...

“Não, não, pode parar... vinte também não é.” Falou em voz alta.

         Agora sem muita opção, ela precisava ser objetiva, mas ainda não tinha conseguido se convencer:

“Como assim, 30???” Continuava a questionar.

“Então de repente você acorda de manhã e, BUM, tem 30? Não! Não é assim!!!”.

 Ela não tinha muito tempo, logo enfrentaria as pessoas e precisaria explicar o mal-entendido. Sem saber o que fazer se pôs a rezar:

“Querido, Deus! Acredito que tenha havido um pequeno engano, isso acontece, mas preciso que o Senhor faça, urgente, uma recontagem da minha existência, há uma divergência grave de dados! Vou dormir mais uma hora e, quando acordar fingiremos que nada aconteceu.”

Ela estava certa de que em algum momento, alguém havia adiantado os anos no calendário e esqueceu de voltar.

“Será que Deus também burlava as vidas do Candy Crush?”

Foi aí que ela lembrou do vício em joguinhos de celular, e então, aliviada, voltou para 12.  Mas logo se deu conta que com 12 ela brincava na rua e não existiam celulares.

“Droga, isso me acrescenta pelo menos uns 5”.

      E lembrou que foi com 17 a primeira vez que saiu de casa, foi ser psicóloga, mas foi com 17, também, a primeira vez que voltou, psicóloga não foi. Nesse momento, ela começou a rever todas as tentativas, idas e vindas, todos os erros e acertos de sua vida, e isso levou um tempo... eram muitos.

“Putz, então, se for assim, tô com 58!!!”

Logo se acalmou do susto, pois não era tão impossível assim, pensou nas novelas, nas manias, nas horas de sono, na Ana Maria Braga...

     “Não, se fosse assim eu estaria com 87!!!!” Ela estava em forma para 87.

“Mas eu não deveria estar aposentada?” Riu de si mesma.

Nesse momento relembrou de todos os empregos e trabalhos fora do padrão que já teve, lembrou que aceitava qualquer parada, por uma boa e nova aventura, lembrou do seu amor pelos animais e o tempo que passou com eles...

        “Certamente é 24!!” Disse animada.

Mas pensando em tudo que tinha aprendido, o quanto amadureceu, tantas pessoas que conheceu, cidades que passou, inúmeras dificuldades que enfrentou...

“Seria 41?” Caiu dura para trás com as mãos na cabeça.

Ela se virou para o outro lado da cama e decidiu não se levantar. Assim, não teria que lidar com esse tal de número. Afinal o que os olhos não veem o coração não sente. E foi nesse momento que ela também decidiu que não se olharia mais no espelho, nunca mais.

“Eu não posso assistir isso” Disse indignada.

Ela não queria ser expectadora, nem cúmplice desse crime chamado idade. Ficou ali deitada na cama mais um tempo, pensando em novas formas de contabilizar a vida. Ela não achava justo ser enquadrada numa categoria com a qual não se identificava. E ela não se identificava com esse 30. Era um susto acordar e de repente...

“Aff!!!”. Ela sabia que isso não iria funcionar.

Pensou em todos os amigos, nos Natais em família, nas viagens e lugares que conheceu, pensou nas brigas e nos romances, nas risadas e, melhor, lembrou das gargalhadas, daquelas de doer a barriga, que até esqueceu das tristezas. E se deu conta de quanto ela tinha mudado e crescido. Lembrou de tudo que passou, mas, também, se deu conta de que tudo passou, e ela ...

“Chegaaaaa!!!” Gritou!

Então ela percebeu... “De repente coisa nenhuma!!!”

Algo nela, finalmente, começava a mudar...

“Chega de você também!!!” Falava ela sozinha.

“Não! Eu tô falando com você!!!” Ela soava confusa...

”Não tô confusa! Agora eu entendi tudo. Você já pode sair, Dona Narradora! Eu assumo daqui. Obrigada!”

Oi? Uhm! Hehe... Ela parecia brincar com essa que vos fal...

”Não é brincadeira! Vou falar por mim a partir de agora!” Ela interromp...

“Eu interrompi!” Ela insist...

“Eu insisto!"... Eu insisto!

.... e, então, foi pouco antes de 30 anos que ela decidiu se livrar da personagem... e resolvi assumir as rédeas da minha própria vida ... E entendi, que a melhor idade é aquela que se tem!!!


Seja bem vindo, 30!!!!


sábado, 30 de maio de 2015

Da série: Eu e a Vida: "… e quando é a vida que erra?"

… e quando é a vida que erra?

Eu não errei de novo, dessa vez não fui eu...

Eu não estava no lugar errado, na hora errada, nem estava no lugar certo. Eu só estava naquele lugar, só queria ver o tempo passar.

Mas a vida trocou as bolas, foi a vida que mandou eu entrar

E eu disse: - Não, Vida! Dessa vez você não pode mandar!

A vida já me ensinou tanto, que eu me sentia na obrigação de alertar:

- Vida, repare devagar, isso não vai funcionar!

Acho que para ela soou como um grande blá blá blá

A vida errou o tempo, o modo e o lugar. Acertou no tamanho! O problema, é que ela não estava mais lá para me ajudar a carregar, era grande!

A vida percebeu a confusão. A vida retomou sua razão. E achou melhor dizer não. Seguiu seu rumo, sem nem se importar.

Logo pensei, e essa conta quem vai pagar?

Eu fiquei lá, tentando falar, explicar, convencer, mas a vida já sabia o que fazer. Ela foi em frente, sem nunca parar.

E eu continuei querendo lembrar em que momento da vida eu me deixei enganar. Droga, Vida! Dessa vez eu não queria brincar!

E foi aí que eu me lembrei, a vida não tem essa nossa mania de perguntar, ela é como o vento que quando passa muda todas as folhas de lugar.

Só que a vida nunca para de passar, e a bagunça fica para gente arrumar.

- Vida, volta já aqui! Dessa vez você vai ter que assumir!

Brincalhona! Passou bem do meu lado e eu nem vi!

Ah! Tá certo! Já entendi. Melhor dar tchau logo e começar a limpar...

Logo ela volta com mais uma lição, dessa vez vou me preparar!

- Ahn? O que? Ei! Espera, quem é você?


Ahh não! De novo, não! Lá vem ela... se seguuuuuuuuuuuuuuu....!




sábado, 25 de abril de 2015

"Coisas da Vida"

Da série Eu e a Vida:

Coisas da Vida

Era uma linda manhã de sábado, lá estava eu, sentada no ponto de ônibus, ainda sonolenta. Mesmo atrasada, não me incomodei com a demora. Pelo jeito logo passaria um, o ponto estava cheio.

Eu estava ali, distraída, perdida em meus pensamentos. Notei se aproximando uma moça muito bonita, bem vestida, olhando para os lados meio confusa. Quando ela chega mais perto, percebe as pessoas paradas no ponto de ônibus e, também resolve parar. Eu continuei olhando para ela, atraída por aquela beleza diferente e comum ao mesmo tempo. Tive a sensação de que a moça não sabia muito bem o que estava fazendo ali. E, agora mais perto, eu vi que ela não era tão jovem como eu pensei. Mas era realmente muito bonita.

Chegou um ônibus, não era o meu. Continuei sentada olhando as pessoas entrarem, o dia estava tão lindo que eu estava sorrindo, sem pensar em nada, apenas sorrindo. A mulher, que estava por último na fila, esperando sua vez de entrar no ônibus, olha para mim e sorri de volta. E nessa hora eu tive certeza que ela não sabia aonde estava indo, pois imediatamente ela desistiu da fila e resolveu esperar o próximo ônibus. Ficou parada ao meu lado, também sorrindo. Eu abaixei a cabeça, sem graça, por ter sido pega no flagra na minha observação, mas logo levanto e volto a observá-la. Era fato que aquela mulher não era igual a nenhuma outra, tinha os cabelos extremamente brilhantes, um olhar terno, ingênuo, e ao mesmo tempo muita sabedoria, e muito mais, que fazia com que eu continuasse olhando.

Já sem jeito, eu resolvo puxar uma conversa, como quem não quer nada:

- Quase errou o ônibus?!

- Não, não. Mudei de rumo!

“Percebi”, pensei eu em um tom meio julgador.

- Meu nome é Ana Letícia.

- Eu sou a Vida. Ela respondeu muito simpática

- Vida? Bonito nome! Vida de que?

Ela me olhou meio confusa, me deixando confusa, pois ao mesmo tempo que ela parecia não saber onde estava, ela me parecia tão sábia.

- Como assim Vida de que? Depende... de tudo!

Eu ri, com certeza ela teve uma noite intensa, e ainda estava sobre efeito de algum narcótico, apesar da aparência limpa. Mas agora quem me observava era ela, e tive a impressão que ela estava pensando exatamente a mesma coisa de mim. Naquele momento achei que iniciar uma conversa não foi a melhor ideia do mundo e torci intensamente para que meu ônibus chegasse logo. E torci mais ainda para ela não pegasse o mesmo.

- Você não tem sobrenome? Perguntei.

- Não, eu sou só Vida. Vida das pessoas, das plantas, animais e por aí vai.

Percebendo o tamanho da loucura da moça resolvi não questionar e entrei na brincadeira.

 - Hum! E para onde a Vida vai? Perguntei segurando a risada pelo trocadilho infame.

- Não sei. Respondeu no mesmo tom tranquilo de antes. – Me perdi, e agora preciso de uma carona.

Nesse momento, comecei a ficar preocupada com a situação daquela mulher, olhei ao redor pensando no que fazer e foi aí que eu me dei conta que o ônibus já estava demorando demais. Olhei em volta e vi que o carro no posto de gasolina era o mesmo há tempos e as pessoas na calçada não mudaram de lugar. Havia um silêncio inacreditável.

- Parece que o tempo parou. Falei em voz alta.

- Sim! Eu parei para você!

Disse ela naturalmente, sorrindo, sempre sorrindo. Um sorriso que iluminava seu ser. E me deixava cada vez mais confusa. Apesar da loucura toda, ela realmente parecia estar falando sério.

- Você está me assustando, Vida!

Disse aquilo querendo desacreditar, mas quase acreditando. A mulher olhava na mesma direção que eu, mas ao invés de espantada com aquela cena estática, ela olhava com tranquilidade. Como se esperasse o meu tempo de compreender.

- Por que assustando, Ana? Eu sou a Vida, não a morte! A morte sim, quando pede carona, deve assustar as pessoas, com aquela roupa preta e sua foice.

Ela riu, e eu também. A Vida sabia ser engraçada. Mas eu, na ânsia de entender aquilo tudo, logo continuei o interrogatório:

- Vida, mas eu não estou entendendo nada, por que tudo isso? O que você está fazendo aqui? Como assim se perdeu?

- Eu errei o caminho, tropecei, e quando levantei não sabia mais onde estava. Agora tenho andado procurando o ponto de onde parei.

- Você se perdeu há muito tempo?

- Sim. Nem sei quanto. E parece cada vez mais difícil de me encontrar. Eu chego perto das pessoas, mas elas não querem saber muito de mim.

- Mas as pessoas vivem, certo? Então você está com elas?

Perguntei aquilo e franzi o cenho, espantada com a minha própria pergunta. O que não causou o mesmo efeito nela, que respondeu naturalmente, com a mesma tranquilidade desde o início da nossa conversa.

- Sim, eu estou com as pessoas, mas elas não me notam.

Olhei para ela com um aperto no peito, me sentindo culpada, pois algo me dizia que eu estava incluída naquelas pessoas.

- Tudo bem, eu não tenho pressa.

Me espantava a calma com que falava aquilo tudo, a ternura que havia nela. Eu naquela situação já estaria descabelada, chorando pelos cantos, desesperada... Mas que diabos! Pensei me repreendendo, lá estava eu de novo, analisando aquilo como se fosse real. É claro, que logo eu acordaria, aquilo não passava de um sonho.

- Não é sonho, Ana! Se você preferir e posso deixar o tempo correr normalmente, mas seria um desperdício, já que agora nos encontramos.

Meu coração disparou, e senti o sangue se esvair do meu corpo. E a voz demorou a sair.

- Não, está ótimo! Parece que o ar está mais leve, o sol brilhando mais, as pessoas... engraçado ver as pessoas assim. É uma sensação tão boa, nunca senti nada parecido.

Naquele momento comecei a reparar em tudo que estava a minha volta, paralisado ainda. Olhei para o céu e vi um pássaro, congelado, com as asas abertas. Vi um homem abaixado na porta da sua padaria dando uns pedaços de frango a um cachorro magro. Vi a formiga carregando uma folha no chão, determinada. E vi tantas outras coisas, que há muitos anos não parava para olhar. As flores, as cores. Tudo.

- É tudo tão bonito! Disse.

Começava a perceber, o que aquela mulher falava. Meu pensamento, ao contrário do tempo corria a mil por hora, eu tinha tantas perguntas. É como se nós vivêssemos todos os dias sem ver a vida passar...

- Sim. Ela interrompeu meu pensamento. - É o que eu disse, vocês não me veem mais. Por isso está tão difícil de retomar meu caminho.

Ótimo! Além de tudo ela lia pensamentos. Eu estava ficando angustiada, pois eu sabia que aquele encontro não duraria muito. A Vida precisava seguir.

- Mas eu não sei como te ajudar a encontrar o caminho!

- Você já me ajudou! Você sorriu para mim, Ana! E agora não posso deixar você ir como se nada tivesse acontecido.

- Ué?! Mas não é a vida que deveria sorrir para mim?!

Falei e logo me arrependi. Droga!! Lá estava eu, novamente, fazendo piadas sem graça. Sem saber como lidar com aquela situação. 
Ela me olhou no fundo dos olhos, bela, como a vida deve ser e falou:

 - Não!! A Vida só sorri de volta!


Olhei para rua, para a minha direita, e vi já longe o ônibus que eu esperava... naquele ônibus que eu nunca mais subi.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

As voltas que a vida dá!

As voltas que a vida dá!!!




Lá em casa era assim:

-      Manhêê! Me dá dinheiro?
-      Dinheiro pra que?
-      Pra eu comprar uma coisa...
-      Só vou te dar dinheiro se você me disser para o que você quer!

“Que saco!” Pensava eu, mas respondia por não ter outra saída. E, afinal, eu realmente precisava comprar aquela bala ou chiclete com figurinhas para minha coleção.

Alguns anos mais tarde:

-  Minha filha! Que tanto dinheiro é esse aqui? Dizia minha mãe ao encontrar minhas economias.
-  É meu!
-  Mas quem te deu? Daonde você tirou esse dinheiro todo?

E, sem perceber, você é acusado pela primeira vez de ser um marginal inescrupuloso ou de andar, provavelmente, vendendo seu corpo nas esquinas da cidade. E é nesse momento que você traça o plano mais importante da sua vida: “Quando eu trabalhar nunca mais vou dar satisfações do meu dinheiro para ninguém”.

Mais alguns anos se passam, você já é adulto, mas ainda não trabalha e continua passando pelas mesmas situações de quando era criança. E você percebe que falar mais alto, mais sério ou mais irritado não resolve nada, seus pais ainda querem saber para que, de onde vem e para aonde vai o dinheiro que você usa para sobreviver. E é aí que vem o segundo plano mais importante da sua vida: “eu só vou aguentar isso até me formar, depois nunca mais!”.

E a gente cresce mais um pouco, arranja um emprego, sai de casa e acha que finalmente conquistamos nossa tão sonhada alforria financeira. Agora é hora de ser livre, pensamos, sem ter que dar satisfações sobre a sua vida, nunca mais, para ninguém. Mas aí o tempo passa de novo, e você conhece ELE!!! O cara que te tira do sério, que faz você sair da sua zona de conforto. É engraçado como às vezes conhecemos uma coisa ou pessoa por tanto tempo sem nunca dar a devida atenção a ela. Mas a vida é assim, tem hora para tudo! 

E a hora chega, então não há o que fazer. Você se vê novamente abrindo o jogo. Cedendo e respondendo todas as perguntas. Mas para que resistir? Com certeza ele é alguém com quem você vai construir, juntos, uma história. É inútil lutar. Será ano após ano dividindo seus momentos e seus segredos, desde o dentista até o dinheiro embaixo do colchão. E mesmo que haja mentiras, pois todo relação carrega uma mentirinha, ele irá olhar para você, com o seu cabelo perfeitamente penteado e aquela blusa de tecido delicado, fazendo você ceder mais uma vez.

Mas, finalmente, você assume essa relação! Nao adianta mais correr, você chegou no limite. Então o encara, olha fixamente para ele, e, com o peito enchendo de felicidade, diz: 
- Até que enfim terminei meu Imposto de Renda.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Isa Jornalista






ESTÁ COMPROVADO!!!

Isabela Cersosimo não tem mais 15 anos!!!!

A descoberta foi feita pela própria vivente após comparecer aos dois dias do festival de música Lupa Luna, que aparentemente é para maiores de 18 anos.
E sem dormir resolveu comparecer a todas as atividades do dia-a-dia normalmente!
Nesse momento ela encontra-se bagaçada e com dores pelo corpo, mas acredita na sua recuperação!

"Não dá! Eles dizem que pode ter qualquer idade pra essas coisas, mas depois que você chega lá e aproveita ao máximo vê que não é bem assim!! Vou tomar as atitudes cabíveis ao caso e não vou no próximo ano, quer dizer, talvez só em um dia!"
Disse em entrevista exclusiva!

Isabela, agora, admite não ser mais uma jovenzinha, mas ainda recusa-se a assumir sua verdadeira idade.

Polly Drewinski Que acompanhava Isabela estava no evento declara em nota oficial que também não tem mais idade para estas coisas, mas que continuará participando até de fato não aguentar mais.

Em 21 de maio de 2011, Curitiba, PR.



CLASSIFICADOS

VENDE-SE FALCON!
Carro tipo Fusca, azul brilhante, feliz, ano 1979, jovem de espírito.
Ele cumpriu sua missão em minha vida, deixando muitas marcas de alegria. 
Agora Falcon busca novos desafios. Outras vidas para completar.
Procura alguém carinhoso que lhe dê um teto e algumas manutenções de baixo custo de vez em quando. Em troca, Falcon oferece dedicação total e exclusiva.

Com seus bancos de couro aconchegantes, esse simpático carrinho está de portas abertas para você, que quer um companheiro fiel,

Te tráz para casa em segurança e que está pronto para um relacionamento maduro e duradouro.

Valor: A Mega sena da virada não cobre.
Preço: R$ 6.900,00 (negociável)

Em 7 de janeiro de 2013, Itapiranga, SC.